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Cristina Baixinho

Ivone Cabral

Ronaldo Linhares

Resumen


Notas Introdutórias
 
A pandemia alterou as Investigações Qualitativas (IQ) ao transferir o ambiente de pesquisa do cenário presencial para o ambiente digital, implicando na necessidade de redimensionamento do desenho do estudo à transferência do conhecimento e implementação nos mais variados contextos.A IQ permite a construção de conhecimento tendo como fonte de informações a experiência humana. Já os pensamentos e processos de viver das pessoas no cotidiano, em seu ambiente sociocultural, sinalizam entre outros aspetos, a dimensão relacional de interesse para a IQ. Portanto, implicações subsequentes à compreensão dos processos de viver são importantes à tomada de decisão das pessoas ao impulsionar o desenvolvimento humano e social, bem como a qualidade desse viver (Kerr et al., 2013).Esta ilustração sobre a dimensão relacional da IQ estende-se à assunção de que a relação entre pesquisador qualitativo –pessoa é vital para a construção do conhecimento. Concomitantemente, é o reconhecimento que em todas as transições de vida, a diversidade humana expressa-se na diversidade da experiência, decisão, atuação e no significado que as pessoas atribuem às suas experiências no contexto em que as vivem. Corroboramos do posicionamento de Kerr et al. (2013) de que umasdas vantagens da IQ é o estudo das ‘nuances subtis’ da vida humana e na análise dos processos sociais ao longo do tempo.A pandemia pelo SARS-CoV-2, uma emergência de saúde pública, impôs restrições à presença física dos investigadores qualitativos em encontros relacionais pessoa-a-pessoa (participante de pesquisa), tão essenciais à captura das nuances dos fenômenos investigados com ferramentas qualitativas (entrevista face-a-face, em profundidade, imersão observacional, grupos focais, encontros grupais, grupos de discussão, entre outros). Nos mais variados contextos de vida das pessoas, nomeadamente na saúde, em que há necessidade de um trabalho colaborativo entre clínicos e investigadores, o que se observou foi uma rutura dos encontros, adiando pesquisas qualitativas de implementação em ambiente presencial. Nesse sentido, o desenvolvimento de conhecimento para fazer face à desconhecida COVID-19, ficou limitada aos laboratórios experimentais em detrimento dos laboratórios sociais. Como consequência, o laboratório social presencial e relacional mudou para o ambiente digital. O processo de virtualização das pesquisas qualitativas em ambiente digital não é novo na história de produção do conhecimento pelos caminhos da IQ. As comunidades virtuais são agregações sociais que emergem da internet, quando há suficiente número de pessoas desejosas de manter discussões públicas por tempo e sentimento humano suficientes, para formar redes de relacionamentos pessoais no ciberespaço (Rheingold, 1993, p. 5). O crescimentodestas comunidades no ciberespaço foi favorecido em parte pelo desaparecimento de espaços públicos informais em nossa existência real, e em parte pelo pioneirismo dos “surfistas da internet” (Net Surfers) atraídos pela interação com outras pessoas em um nível completamente novo.A migração temporária (durante a pandemia) dos pesquisadores qualitativos para o ambiente virtual representou um grande desafio à reestruturação ontológica, epistemológica e metodológica daqueles estudos em andamento. Novas perguntas foram formuladas e desenhadas para serem realizadas na modalidade on-line, levando a adoção de recursos, diferentes estratégias e considerações éticas atinentes ao ambiente virtual. A IQ online exigiu consciência de que o ambiente virtual é um novo mundo de abertura, possibilidades e oportunidades, mas também de limitações para a investigação em geral e a qualitativa em particular.É lógico que algumas das ‘nuances subtis’ da vida humana também acontecem cada vez mais em comunidades virtuais, redes sociais, plataformas e afins, e esta constatação tem levado muitos investigadores a repensar os métodos, as técnicas e o trabalho de campo para este novo desafio emergente e a olhar para as novas tecnologias como um campo e/ou uma ferramenta de suporte à IQ, permitindo a manutenção das redes de comunicação e colaboração entre investigadores, sociedade e participantes (Presadoet al., 2021).Por outro lado, há quem advogue que a colheita de dados on-line pode ser prejudicada dado que a existência de uma interface dificulta a construção de uma relação de confiança e empatia (Presado et al., 2021). Corroboramos que há elementos da comunicação não verbal que podem não ser captados em pleno (Minayo & Costa, 2019; Presado et al., 2021). Como observam Minayo e Costa cada entrevista expressa de forma diferenciada a luz e as sombras da realidade, por isso, quando analisada, precisa incorporar o contexto e, sempre que possível, ser acompanhada e complementada por informações provenientes da observação do cenário em estudo. Esta ‘não presença’ pode igualmente colocar limitações à análise e interpretação dos achados (Minayo & Costa, 2019; Presado et al., 2021). Face ao exposto importa que os investigadores debatam as potencialidades do mundo virtual como campo para a IQ,mas também discutam os métodos e técnicas para o ‘mundo 4.0’, defendendo uma cultura científica baseada em boas condutas que possibilitem a confiabilidade e a produção e comunicação da ciência (Cabralet al., 2015). Nesta edição especial, que pretende ser um repto para este debate público em torno da IQ e do mundo virtual, convidamos os leitores a uma reflexão sobre os modos de fazer para aumentar a credibilidade científica do seu trabalho e melhorar a produção e disseminação do conhecimento.
 



 
 

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Sección
Editorial

Cómo citar

Baixinho, C., Cabral, I., & Linhares, R. (2022). Investigação Qualitativa e o Desafio Digital . New Trends in Qualitative Research, 10, e576. https://doi.org/10.36367/ntqr.10.2022.e576
Referencias

Cabral,I.E., Egry,E.Y., & Barbosa, D.A. (2015). Integrity and ethics in research and scientific communication: issues for Nursing considerations. Revista da Escola de Enfermagem da USP; 49(5), 710-5. http://dx.doi.org/10.1590/S0080-623420150000500001. Kerr,F.S., Regina, L.,& Kendall, C. (2013). A pesquisa qualitativa em saúde. Revista da Rede de Enfermagem do Nordeste, 14(6),1061-1063.https://www.redalyc.org/pdf/3240/324029419001.pdfMinayo, M.C.S., & Costa, A.P. (2019). Técnicas que fazem uso da Palavra, do Olhar e da Empatia: pesquisa qualitativa em ação. Aveiro: Ludomedia.Presado, M.H., Baixinho, C.L., & Oliveira, E.S.F. (2021). Qualitative research in pandemic times. Revista Brasileira de Enfermagem; 74(1), e74Suppl101. https://doi.org/10.1590/0034-7167.202174Suppl101Rheingold, H. (1993). The Virtual Community: Homesteading on the Electronic Frontier. Reading, Massachusetts: Addison-Wesley.